Ghost, o doping do Poker

Ghost, o doping do Poker

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29/01/2021

Para os mais leigos em termos de poker, ghost é o ato de outro jogador tomar a decisão por você. Essa prática se tornou muito comum no mercado de poker brasileiro, sendo adotada institucionalmente por alguns dos maiores times do país. 

A definição de doping esportivo é a utilização, por um atleta, de substâncias não naturais ao corpo para melhorar seu desempenho de forma artificial. É exatamente isto que acontece com o ghost no poker, os jogadores (muitas vezes obrigados por seus times), melhoram seu desempenho artificialmente (conseguindo uma lucratividade maior), utilizando-se de um recurso não natural ao ambiente do poker (que presa que as decisões sejam individuais).

O que acontece na prática é que determinado jogador X disputa todo o torneio e quando esse vai chegando em sua reta final ele é “substituído” pelo jogador Y ,ou seja, a partir daquele momento apesar do nick e de todas as informações para os demais envolvidos no torneio sejam do jogador X na verdade quem está tomando as decisões é o jogador Y, o ghost. Imagine que você enfrentou o jogador X por horas neste torneio, com o tempo e as jogadas acontecendo foi mapeando seu estilo de jogo, seu comportamento, seu padrão de apostas e etc, e de repente no momento mais importante do torneio isso tudo é apagado e você passa a enfrentar outro oponente, muito melhor e mais bem preparado que o anterior, e não tem a menor ideia de que isto aconteceu. Imagine agora que você pesquisou a carreira do jogador X e ele possui $2.000 de lucro em 3 anos de poker e estão disputando um torneio que o primeiro lugar receberá $20.000, e em uma situação normal ele estaria extremamente pressionado, pois aquela premiação faria uma grande diferença em sua carreira e talvez em sua vida pessoal, mas na verdade você esta enfrentado um jogador que possui mais de $500.000 de lucro, que é rico em sua vida pessoal, e que considera aquele torneio “apenas mais um”, sem sofrer qualquer nível de pressão por aquela situação. É como se você estivesse disputando um torneio de tênis no clube e na hora que chega a final do campeonato o adversário que você enfrentaria fosse substituído pelo melhor jogador do Brasil e você não tivesse como saber que isto aconteceu. No final das contas, você se baseia para tomar suas decisões em todas as informações que possui sobre o jogador X, mas na verdade esta enfrentando um fantasma, isto acaba causando uma enorme desvantagem pra você e para os demais envolvidos no torneio, isso é uma trapaça!

O ghost executado dessa forma é  proibido por todos os sites de poker, porém é quase impossível de ser detectado pois a outra pessoa pode estar se comunicando pelo telefone, por um chat, por uma chamada de vídeo e etc, fica muito difícil de ser coibido. 

Para quem não é familiarizado com o mercado de poker no Brasil, a grande maiorias dos jogadores profissionais são participantes de algum time. Eles fornecem o bankroll para o jogador disputar os torneios e uma estrutura de apoio que varia mas em geral inclui aulas teóricas, coaches, analises de mãos, softwares de apoio e etc, além de propiciar um ambiente que você se relaciona com vários outros jogadores, e em troca ficam com um percentual do lucro conseguido. Esse acordo vária muito de time pra time, de jogador para jogador, mas em geral o time fica com mais de 50% do lucro de cada jogador.

Do ponto de vista dos times a prática do ghost é uma forma muito eficiente de maximizar o lucro, eles possuem vários jogadores, disputando vários torneios simultaneamente, e na hora que algum deles chega na reta final de um torneio que é onde grande parte do dinheiro está concentrado, quem assume o comando é o que eles possuem de melhor em relação a material humano pra enfrentar aquela situação. Existem casos relatados de grandes jogadores que praticamente abdicaram da sua carreira individualmente falando apenas para fazer o papel de ghost do seu time.

Do ponto de vista do jogador é uma faca de dois gumes. Olhando pelo lado financeiro pode ser uma coisa positiva, o jogador atingira mais rapidamente níveis de lucratividade que talvez demoraria muito mais tempo pra conseguir, se é que algum dia conseguiria. Olhando pelo lado profissional pode ser uma coisa negativa, ele será consagrado por ter atingido feitos que talvez não tivesse conseguido sozinho, será festejado pela família, amigos, comunidade do poker em geral por conquistas que não pertencem somente a ele. O jogador será elevado a um nível profissional que ele de fato realmente não atingiu. Será que ele estará preparado psicologicamente para trabalhar com essa situação? Será que ele esta ciente que talvez não seria capaz de atingir aquele feito sozinho? Será que ele tem consciência que no momento mais importante do torneio, onde um erro pode te custar muito caro financeiramente falando, quem tomou a ação decisiva por ele foi outra pessoa? Será que ele assume, nem que seja para as pessoas mais próximas, que na verdade aquela grande cravada teve ajuda do ghost na hora mais importante? São perguntas bem difíceis de serem respondias. Já tive a experiência de participar de uma aula em que o instrutor fazia uma review de um dos alunos que havia ganhado um grande torneio, com ajuda de ghost e ninguém sabia dessa informação, e este aluno não conseguia explicar determinadas jogadas que fez e por algum motivo não teve a humildade de assumir que aquelas decisões não vieram dele. Pensando na carreira do jogador de poker a longo prazo isto pode ser desastroso.

O poker é um jogo de constante tomadas de decisões, você estuda e se prepara pra tomar as melhores decisões em cada ação, pra cometer o menor número de erros possíveis, e com isso conseguir uma maior lucratividade. Tivemos aula uma vez no Step Team com o Danilo Chencinski, que é instrutor do método DeRose especializado em jogadores de poker, e num áudio de meditação que foi disponibilizado pra gente uma coisa que ele falou me marcou muito: “A cada dia, a cada torneio, a cada mão você aprende uma lição valiosa que fará que você ganhe ainda mais no futuro. Você nunca perde, ou você ganha ou você aprende”. Essa pra mim é exatamente a essência do poker. A partir do momento que nas horas mais importantes não é você que está tomando aquela decisão, será que você realmente estará evoluindo? Será que no momento que você tiver que tomar as decisões sem ajuda de ninguém você conseguirá ter a melhor escolha?

A vida de jogador de poker proporciona vários prazeres: ganhar um torneio ou uma grande premiação que acaba me trazendo uma sensação parecida de vencer um campeonato jogando futebol; ler perfeitamente a ação de um oponente e conseguir passar ou ler um grande blefe que lembra a sensação de fazer um gol em alguma partida; ver sua lucratividade subindo gradativamente mostrando que todo o seu esforço e dedicação esta valendo a pena e várias outras; Com o ghost a maioria dessas sensações pra mim seriam anuladas, aquele sentimento de eu fiz! eu consegui! não seria verdadeiro e por isso sou totalmente contra esta pratica. Lembro que uma vez vi o ex-tenista Fernando Meligeni falando sobre atletas que se dopam e disse uma coisa mais ou menos assim : “Pode ser que ninguém saiba que o atleta se dopa, mas ele sabe, na hora que ele coloca a cabeça a noite no travesseiro tenho certeza que ele se questiona se conseguiria atingir os feitos que conseguiu se estivesse jogando limpo”. É exatamente esse o sentimento que eu teria. Talvez por isso muitos atletas durante ou após sua carreira acabam confessando que se doparam mesmo sem nunca terem sido flagrados, não conseguem conviver com esse peso em suas consciências e acabam por se entregar. 

Sem falar na questão ética que o assunto Ghost está inserido: Todo mundo sabe que é proibido, Todo mundo sabe que é errado e mesmo assim continua sendo feito corriqueiramente e aceito pela comunidade do poker como normal? Até quando?

Em tempos como os atuais em que a sociedade vem se fazendo vários questionamentos, sobre diversos temas e em diversas esferas, chegando a conclusão que algumas coisas que eram admitidas no passado hoje não são mais bem vindas, aquela história do político que rouba mas faz, aquela história de eu sei que é errado, mas se meu vizinho faz porque eu não posso fazer? Este tema talvez reflita um pouco da sociedade brasileira como um todo, que em algumas situações mesmo sabendo que algo é errado, se isto trás algum benefício pessoal “está tudo bem”. 

Talvez seja a hora da comunidade do poker nacional fazer um questionamento sobre ghost. Será que vale essa permissividade em nome do lucro de alguns? Será que vale a pena fechar os olhos pra uma coisa que é tão nociva ao ambiente do poker, afastando dele diversos recreativos e aspirantes a profissionais que são brutalmente prejudicados por esta prática?  Eu acho que não.

Thiago “Homer”

Formado em Sistemas de Informação, construiu sua carreira na área de tecnologia por mais de 15 anos atuando majoritariamente como Analista Programador. Joga poker desde 2008, se dedicando profissionalmente ao esporte da mente desde Outubro/2018, atualmente pelo Step Team.

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